Eu sinto o cheiro o cheiro da tua nuca. Eu sinto o peso de todas as minhas contas. Eu sinto medo pelo meu atraso, mais do que temo pela minha vida. Já não sei o que é ser humano. Eu vivo por reações, minha iniciativa é nula. Sou empurrado por todos os lados. Tu és empurrado tal qual. Somos todos uma multiplicação do mesmo, uma massa amorfa e imprensada contra paredes, contra obrigações, contra os deveres. Meu despertar somente encontra a madrugada, meus movimentos são os de um autômato. Estou aqui preso junto a ti, estou em todos os lugares encarcerado. Quando fecho meus olhos não há uma realidade alternativa a qual imaginar. Sou o habitante, somos habitantes, de um deserto de vida, reproduzindo gerações, nos reproduzindo infinitamente. Para mim, para ti, o amanhã parece um recurso poético, vivemos debaixo do teto de um hoje eterno, de um agora que não acaba. Perdoo a sua transpiração fétida, perdoe a minha. Não há para onde escapar, nunca há. Há muita discussão em torno de nosso re...
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